
Vivemos sob o domínio silencioso do relógio. Cada minuto é contado, cada hora transformada em valor, cada dia avaliado por desempenho e resultados.
O tempo, que outrora era medida da vida boa, tornou-se instrumento de cobrança permanente, e a alma aprende cedo a submeter-se ao seu ritmo impessoal.
Nesse cenário, o mito de Cronos surge não como mera curiosidade antiga, mas como imagem inteligível da condição atual.
O titã que devora os próprios filhos simboliza o tempo que, quando absolutizado, passa a consumir aquilo que deveria gerar. O esquecimento do tempo sagrado não nos tornou mais livres, apenas mais eficientes e, paradoxalmente, mais vazios e sofredores.
A modernidade herdou um cronos reduzido à quantidade. Horas são fragmentos, dias são metas, a vida é agenda. O resultado é uma interioridade comprimida, incapaz de silêncio, de maturação e de contemplação.
O produtivismo não nasce do excesso de trabalho, mas da perda de hierarquia entre agir e ser.
Retomar a narrativa mítica é, portanto, um exercício filosófico necessário. O mito educa a imaginação e prepara a razão para reconhecer aquilo que o discurso técnico já não alcança.
Ao refletir sobre Cronos, somos convidados a compreender o drama da pressa, da ansiedade e da perda de sentido como sintomas de uma desordem mais profunda no modo de habitar o tempo.
Reaprender a pensar o tempo é o primeiro passo para restaurar a vida interior.
