
Razão ou experiência? Em que devemos confiar quando desejamos conhecer alguma coisa: na capacidade de raciocinar ou naquilo que podemos observar e comprovar? Essa questão ocupou boa parte da filosofia moderna e continua presente, mesmo quando não percebemos, na maneira como avaliamos aquilo que consideramos verdadeiro.
A diferença entre racionalismo e empirismo começa justamente aí, na pergunta sobre a origem do conhecimento. Para os racionalistas, a razão é capaz de alcançar determinadas verdades independentemente da experiência sensorial. Existem conhecimentos que não precisamos adquirir por meio dos sentidos.
Os empiristas seguem outro caminho. Para eles, a experiência é a origem do conteúdo do nosso conhecimento. Não nascemos com um conjunto de ideias prontas. É no contato com o mundo e na reflexão sobre nossas experiências que começamos a conhecer.
Essa divergência marcou profundamente a filosofia dos séculos XVII e XVIII. Entretanto, quando examinamos os argumentos de cada pensador, descobrimos que a separação não é tão simples quanto parece. Para compreender o debate, precisamos conhecer as duas correntes, entender a controvérsia sobre as ideias inatas e reconhecer os limites dessa classificação.
O que cada corrente defende
Os filósofos que costumamos reunir sob o nome de racionalistas apresentam diferenças importantes entre si, mas compartilham uma convicção: a razão pode alcançar verdades que não dependem exclusivamente da experiência dos sentidos.
René Descartes, na primeira metade do século XVII, procurou demonstrar isso por meio da dúvida metódica. Decidiu colocar em dúvida tudo aquilo que pudesse ser questionado, inclusive as informações fornecidas pelos sentidos. Encontrou, porém, uma certeza da qual não conseguia escapar: enquanto duvidava, necessariamente pensava e existia. É o conhecido cogito, ergo sum. A existência daquele que pensa não precisava ser comprovada pelos olhos ou pelas mãos.
Baruch de Espinosa seguiu outro caminho. Em sua Ética, adotou o método geométrico, construindo demonstrações a partir de definições e axiomas. Gottfried Wilhelm Leibniz, por sua vez, distinguiu as verdades de razão, necessárias e demonstráveis logicamente, das verdades de fato, que dependem da maneira como o mundo efetivamente se apresenta.
Entre os empiristas britânicos, encontramos uma perspectiva diferente.
John Locke, em seu Ensaio sobre o Entendimento Humano (1689), questionou a existência de ideias inatas. Comparou a mente a uma tabula rasa, uma folha inicialmente em branco, cujo conteúdo é adquirido pela experiência. Esse conteúdo possui duas fontes: a sensação, que nos coloca em contato com o mundo exterior, e a reflexão, pela qual percebemos as operações da própria mente.
George Berkeley desenvolveu uma filosofia na qual os objetos sensíveis existem enquanto percebidos por espíritos ou mentes. Sua conhecida expressão esse est percipi, ser é ser percebido, resume um aspecto fundamental dessa posição.
David Hume levou a investigação empirista a consequências ainda mais profundas. Ao examinar a causalidade, observou que não percebemos diretamente uma conexão necessária entre causa e efeito. Nossa expectativa de que determinados acontecimentos se repitam nasce do hábito formado pela experiência. O fato de o Sol ter nascido todos os dias não constitui, por si só, uma demonstração racional de que nascerá amanhã.
O campo de batalha: as ideias inatas
A discussão sobre as ideias inatas permite compreender com mais clareza a divergência entre racionalistas e empiristas.
Descartes defendia que certas ideias não poderiam ter sua origem exclusivamente nos sentidos. Entre elas, encontrava-se a ideia de Deus, entendida como a de um ser infinito e absolutamente perfeito. Para o filósofo, determinadas ideias pertencem à própria natureza do entendimento e não são simplesmente produzidas pelas impressões sensoriais.
Locke discordava.
Dedicou o primeiro livro de seu Ensaio à crítica do inatismo. Entre seus argumentos, questionou a suposta aceitação universal dos princípios considerados inatos. Se determinadas verdades estivessem presentes na mente de todos desde o nascimento, como explicar que crianças não demonstrassem conhecê-las?
Para Locke, não precisamos recorrer a ideias previamente inscritas na mente. A experiência fornece os materiais com os quais o entendimento trabalha, inclusive quando produz conhecimentos complexos.
Leibniz respondeu a essas objeções nos Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano. Sua posição, entretanto, não consistia em afirmar que nascemos conhecendo conscientemente determinadas verdades.
Para explicar seu pensamento, utilizou a imagem de um bloco de mármore. Diferentemente de uma superfície completamente lisa, o mármore possui veios que favorecem determinadas formas. O escultor trabalha sobre uma matéria que já apresenta disposições próprias.
Algo semelhante aconteceria com a mente. Certos princípios estariam presentes como disposições naturais, que a experiência permite desenvolver. Assim, a experiência desempenharia um papel indispensável, mas não seria a origem de todas as estruturas do conhecimento.
Essa controvérsia não desapareceu. Nas ciências cognitivas contemporâneas, encontramos discussões que retomam questões semelhantes. As propostas inatistas associadas a Noam Chomsky, por exemplo, reacenderam o debate sobre a existência de estruturas cognitivas anteriores à aprendizagem. Evidentemente, os problemas científicos atuais não são idênticos aos dos filósofos modernos, mas a questão fundamental permanece reconhecível.
Uma oposição útil, mas não absoluta
Quando estudamos história da filosofia, encontramos frequentemente uma divisão bastante organizada: de um lado, os racionalistas continentais; do outro, os empiristas britânicos.
Essa classificação facilita o aprendizado, mas precisamos utilizá-la com cuidado. Trata-se de uma interpretação historiográfica consolidada posteriormente, sobretudo a partir do século XIX, que não corresponde perfeitamente à maneira como os próprios filósofos compreendiam suas investigações.
Descartes, por exemplo, atribuía enorme importância à razão, mas também realizava pesquisas científicas que envolviam observações e experimentos, especialmente nos campos da óptica e da fisiologia.
Locke, por sua vez, não considerava a mente um simples recipiente passivo. Reconhecia operações intelectuais pelas quais organizamos, comparamos e elaboramos as ideias adquiridas pela experiência.
Foi Immanuel Kant quem apresentou uma das respostas mais influentes a essa controvérsia.
Na Crítica da Razão Pura, publicada em 1781, Kant sustentou que todo conhecimento começa com a experiência, embora nem todo conhecimento derive dela.
Sua proposta reconhece tanto a importância da experiência quanto a existência de estruturas a priori que tornam possível nosso conhecimento dos objetos. Não basta receber impressões sensoriais. É necessário que o entendimento organize aquilo que nos é dado.
A famosa formulação kantiana expressa essa relação: pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas.
Com isso, Kant procurou superar a oposição tradicional, demonstrando que sensibilidade e entendimento desempenham funções distintas e complementares no conhecimento humano.
Para quem estuda filosofia, compreender a diferença entre racionalismo e empirismo significa muito mais do que memorizar autores ou identificar duas escolas de pensamento.
Significa investigar uma questão que acompanha toda a nossa vida intelectual: como sabemos aquilo que afirmamos saber?
A razão permite estabelecer relações, formular argumentos e reconhecer verdades necessárias. A experiência nos coloca em contato com o mundo e fornece elementos indispensáveis à investigação.
Estudar essas duas tradições é aprender a reconhecer o alcance e os limites de cada uma. E talvez seja essa a contribuição mais importante do debate: desenvolver o hábito de examinar não apenas nossas conclusões, mas também os fundamentos que nos levaram até elas.
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- Daniél Fidélis :: | Templum Sapientiae


