
Poucas palavras da tradição filosófica foram tão distorcidas quanto a metafísica. Em livrarias esotéricas, tornou-se quase sinônimo de misticismo. Na linguagem comum, passou a designar tudo aquilo que parece escapar ao material e ao palpável. Fora da filosofia, o termo perdeu boa parte de seu sentido original. Dentro dela, porém, continua nomeando uma das investigações mais profundas e rigorosas realizadas pela inteligência humana.
Se você já se perguntou o que é metafísica, a resposta começa por uma curiosidade: o filósofo que deu forma à disciplina nunca utilizou essa palavra. Aristóteles chamava esse campo de filosofia primeira (próte philosophía), pois nele investigava os princípios mais fundamentais de tudo o que existe. O nome pelo qual conhecemos a disciplina surgiu séculos depois, por uma circunstância quase banal. E compreender essa origem já nos aproxima do verdadeiro problema.
Essa é, confesso, uma das minhas áreas preferidas da Filosofia. Quero, portanto, devolver à metafísica a clareza que o uso impreciso lhe retirou, para que você compreenda o que ela realmente é, o que investiga e por que ainda importa.
A metafísica estuda o ser enquanto ser. Não este ou aquele objeto particular, não apenas os astros, os animais ou as plantas, mas aquilo que permite dizer de qualquer coisa que ela é. Essa formulação vem de Aristóteles e permanece como uma das definições mais precisas do campo metafísico.
O nome que Aristóteles não deu
A origem do termo é conhecida entre estudiosos, mas pouco lembrada fora da filosofia. Por volta do século I a.C., o filósofo peripatético Andrônico de Rodes organizou os textos de Aristóteles que chegaram até ele, muitos fragmentários e sem títulos definitivos.
Ao ordenar esse material, colocou determinado conjunto de tratados logo depois dos livros dedicados à física. Em grego, a indicação era simples: tà metà tà physiká, expressão que pode ser entendida como "os livros depois dos de física".
Era, antes de tudo, uma indicação de posição na organização dos textos. Com o tempo, porém, a expressão transformou-se no nome de uma disciplina.
Há certa ironia nisso. Aquilo que ficou conhecido como algo situado "depois da física" era considerado por Aristóteles o saber mais elevado. Sua filosofia primeira não funcionava como continuação da física, mas investigava aquilo que nenhuma ciência particular poderia alcançar: os princípios, as causas primeiras e o ser enquanto ser.
A física aristotélica examina os entes naturais sujeitos ao movimento e à transformação. A matemática considera quantidades abstraídas da matéria. A metafísica pergunta por algo ainda mais fundamental: o que significa existir e quais princípios tornam possível falar de qualquer ente.
Por isso Aristóteles considerava essa investigação universal e, ao mesmo tempo, extremamente difícil.
Entender essa diferença impede um dos erros mais comuns: imaginar que metafísica seja simplesmente especulação livre ou fantasia sobre realidades invisíveis. Em seu sentido filosófico, ela é uma investigação racional sobre as estruturas mais fundamentais da realidade.
O que estuda a metafísica
Podemos formular seu objeto de maneira simples. A metafísica investiga o que existe, o que permanece e o que fundamenta a realidade. Em linguagem aristotélica, ocupa-se do ente enquanto ente (tò ón hêi ón): aquilo que existe considerado não sob determinado aspecto, mas precisamente enquanto existente.
Desse ponto surgem perguntas inevitáveis. O que é substância? O que é causa? Existe alguma realidade que não dependa de outra para existir? O que distingue aquilo que é real daquilo que apenas parece real? O que permanece quando as coisas mudam?
À primeira vista, essas perguntas podem parecer muito abstratas. Na realidade, atravessam problemas bastante concretos.
Quando alguém pergunta se nossas escolhas são verdadeiramente livres ou inteiramente determinadas, encontra um problema metafísico. Quando procura saber se a justiça possui algum fundamento real ou se é apenas convenção humana, também toca a metafísica. Até a distinção entre aquilo que é essencial e aquilo que é apenas circunstancial depende de categorias trabalhadas pela tradição metafísica.
A metafísica, portanto, não representa uma fuga do mundo. Pelo contrário. É uma tentativa de compreender o que o mundo é em seu fundamento.
Por isso praticamente toda a tradição filosófica posterior precisou enfrentá-la. Tomás de Aquino, Avicena, Leibniz, Kant e tantos outros responderam de modos diferentes às questões herdadas da filosofia antiga. Alguns desenvolveram seus princípios, outros os criticaram, outros modificaram profundamente a maneira de formular os problemas.
E essas questões não desapareceram. Continuam presentes sempre que perguntamos pela natureza da realidade, da consciência, do tempo, da causalidade ou da própria existência.
Mesmo as tentativas modernas de rejeitar a metafísica esbarraram numa dificuldade curiosa. Ao declarar que somente determinado tipo de realidade ou conhecimento merece ser aceito, já se está assumindo uma posição sobre o que existe e sobre aquilo que pode ser conhecido. Em outras palavras, corre-se o risco de rejeitar a metafísica por meio de uma afirmação que também possui pressupostos metafísicos.
O fundamento que sustenta as demais perguntas
Compreender o que é metafísica não serve apenas para satisfazer uma curiosidade histórica. Serve para perceber que todo conhecimento parte de pressupostos que nem sempre examinamos.
A ciência natural parte da confiança de que o mundo possui alguma inteligibilidade e de que existe regularidade nos fenômenos. A ética precisa perguntar, em algum momento, se o bem possui fundamento ou se depende exclusivamente de convenções. A lógica trabalha com princípios sem os quais nenhum raciocínio permaneceria de pé.
Um deles é o princípio de não contradição, apresentado por Aristóteles no Livro IV da Metafísica como o mais firme de todos os princípios. Uma coisa não pode ser e não ser, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto.
Esses fundamentos não são detalhes. Examiná-los faz parte justamente do trabalho metafísico.
A metafísica não disputa espaço com a física, a biologia ou a matemática. Sua pergunta está em outro nível. Enquanto as ciências particulares investigam determinados aspectos da realidade, a metafísica pergunta pelo solo sobre o qual essas próprias investigações se tornam possíveis.
Para o Buscador que começa a percorrer o caminho filosófico, perceber isso muda a maneira de estudar.
A metafísica deixa de parecer apenas mais uma disciplina entre tantas outras. Ela se revela como uma investigação sobre os fundamentos da própria atividade de conhecer. Quando esses fundamentos se tornam conscientes, também o estudo de outros temas ganha profundidade. Passamos a perceber, por trás das questões imediatas, problemas que antes permaneciam escondidos.
É nesse sentido que a metafísica continua sendo aquilo que Aristóteles chamou de uma ciência que se busca. Não porque seja necessário estudá-la para cumprir um programa acadêmico, mas porque a inteligência, quando começa a investigar seriamente a realidade, inevitavelmente encontra perguntas que nenhuma ciência particular consegue responder sozinha.
Quando a inteligência desperta para a pergunta pelo ser, muda também a maneira de olhar o mundo. Um objeto deixa de ser apenas aquilo que aparece diante dos olhos. Um fenômeno passa a carregar perguntas sobre suas causas, sua natureza e seu fundamento.
A metafísica não oferece respostas fáceis porque trabalha justamente com algumas das perguntas mais difíceis que a razão humana pode formular. E talvez seja esse o seu maior valor formativo.
Uma vida intelectual pode acumular fatos, livros, teorias e informações. Mas, se nunca perguntar pelo fundamento das coisas, continuará sabendo muito sobre a superfície sem compreender aquilo que a sustenta.
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- Daniél Fidélis :: | Templum Sapientiae


